Meu amado avô Zeca: exemplo de cidadão a serviço da população
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Meu amado avô Zeca: exemplo de cidadão a serviço da população

Era um homem com pouco estudo, muito trabalhador, detentor de espírito público e respeito pelo que pertencia ao povo

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Com meu avô e o primo Eduardo Massagardi (à direita) numa foto dos vários momentos juntos que passamos (Foto: Acervo Maurício Ferreira)

Nasci literalmente no interior da Prefeitura de Jundiaí, mais precisamente no Depósito Municipal que funcionou durante décadas na avenida Dr. Amadeu Ribeiro, no Anhangabaú, entre o Bolão e o Parque da Uva.

Meu avô Zeca Ferreira e meu pai Ferreirinha (José Antônio) eram funcionários públicos e moravam nas casas da Prefeitura. Vim ao mundo, numa dessas moradias, pelas mãos de uma parteira muito conhecida em Jundiaí e região: dona Rita Natália Tonoli. Nessa época, as mulheres tinham tanta confiança nela que preferiam fazer o parto em casa do que no hospital.

Tive uma infância livre e feliz, pois o meu quintal eram o ginásio de esportes Dr. Nicolino de Lucca (homenagem ao grande médico de nossa cidade) e o Parque Comendador Antônio Carbonari (bravo imigrante italiano que introduziu o cultivo de uva em Jundiaí e a transformou em “Terra da Uva”).

Bonaventura Cecchin (registrado como Boaventura Chequin), o tio Ventura, junto com meu avô Zeca

Meu avô Zeca, o “seo” Zé Ferreira ou Zé do Oito (número do caminhão que dirigia), era um homem com pouco estudo, pois naquele tempo as famílias precisavam que as crianças trabalhassem para poder subsistir. Quando elas aprendiam a ler e escrever, deixavam a escola para entrar na labuta. E ele, por muito tempo, trabalhou no campo.

Quando ingressou na Prefeitura, Zeca iniciou na função de motorista. Depois, passou a administrador do Depósito Municipal e se aposentou como escriturário. Autodidata, tinha um português impecável segundo minha saudosa irmã, professora Marcia Ferreira de Moraes (mestre em Língua Portuguesa).

Autodidata, tinha um português impecável

Por muito tempo, o Zé Ferreira foi administrador desse depósito, local onde eram abastecidos os veículos da Prefeitura. Lá, também, eram guardadas ferramentas, lâmpadas, material de apreensão do comércio e cavalos – pois, até o final dos anos 1960, alguns serviços públicos ainda eram executados por meio de tração animal.

Um tempo atrás, senti muita alegria em resgatar uma fita K7 com uma gravação de meu amado avô. A gravação foi feita no Natal de 1975 sem que ele soubesse que estava sendo gravado (veja vídeo abaixo). Foi uma felicidade imensa poder ouvir novamente a voz de quem eu amo muito – e que passou para o andar de cima em 1982. O sentimento só cresceu, pois ele é uma referência importante em minha vida.

Tinha apenas 6 anos nessa época e testemunhei em várias situações as atitudes desse homem detentor de espírito público e muito respeito por aquilo que pertencia ao povo. Como exemplo, lembro que certa vez uma das lâmpadas da casa do meu avô havia queimado e minha vó (também uma pessoa muito correta, mas bastante prática) sugeriu que ele retirasse uma nova do estoque da Prefeitura e que a devolvesse logo pela manhã, depois que a vendinha do seo Tomé abrisse.

Meu avô foi taxativo: “A honestidade não pode esperar até amanhã! As lâmpadas não são minhas e nem do prefeito Omair (Dr. Omair Zomignani), são da população de nossa cidade”.

O que é, afinal, ser honesto?

Seria, só, não desviar verbas públicas como vemos, enojados, todos os dias em TODOS os partidos? E vemos acontecer em todas as esferas de governo? Seria não mentir? Não dissimular? Ou simplesmente repudiar qualquer tipo de malandragem da “Lei de Gerson”?

É muito mais do que isso. A honestidade nos dá alegria, paz, cabeça erguida e, no caso daquele que ocupa um cargo público, oferece uma vida mais digna, com mais educação, saúde, segurança…

Nosso desejo é que os políticos do nosso País tenham essa alegria e essa paz que nós temos e que se espelhem não só no Zé Ferreira, mas em todos os nossos ascendentes: pessoas de bem, retas e honestas!

Trabalhadores que, com sangue e suor, construíram e fizeram jus à frase ao pé do brasão de Jundiaí (escrito em latim): “Etiam per me Brasilia Magna”, que significa “Também, graças a mim, o Brasil tornou-se grande”.

Gostou da homenagem? Tem alguma história interessante da cidade, um fato inusitado ou quer que falemos sobre algum assunto? Peço que ajude a preservar nossa história: envie fotos antigas e participe do grupo no Facebook.

Até semana que vem!

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Clube 28 de Setembro carrega histórias de resistência e luta contra a discriminação racial em Jundiaí

Até hoje, o Clube 28 é referência de entretenimento, recreação e um marco na história negra de Jundiaí e do Brasil.

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Foto de antiga entrada do Clube 28 de Setembro, em Jundiaí
O nome do clube foi dado em homenagem à Lei do Ventre Livre, instituída em 28 de setembro de 1871 (Fotos: Acervo Maurício Ferreira)

Quem passa pela área central de Jundiaí já deve ter reparado naquele toldo preto, com o número 28 em vermelho e a sigla CBCRJ: Esse é o Clube 28 de Setembro. O centro cultural foi inaugurado no dia 1º de janeiro de 1895, a partir da iniciativa de um grupo de ferroviários negros, que se uniram para fundar uma agremiação…

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Mário Milani, o craque jundiaiense que ia aos treinos pilotando um avião

Apesar do destaque em grandes clubes brasileiros, a carreira dele não é muito conhecida. Por isso, prestamos essa homenagem

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Mário Milani
Jundiaiense era considerado um grande profissional do futebol, além de contabilista e também aviador (Fotos: Acervo Maurício Ferreira)

O termo "voar em campo", muito usado nas resenhas do futebol, nunca serviu tão bem para contar a história desse jundiaiense que brilhou em muitos gramados com a camisa de alguns dos principais clubes brasileiros. Estamos falando de Mário Milani, jogador de futebol e contabilista que aprendeu a pilotar avião para não perder tempo nas viagens de trem entre Jundiaí…

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Pipoqueiros marcaram época em Jundiaí: você conhece algum deles?

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Pipoqueiro Caxambu
Pipoqueiro na estrada de terra, no bairro Caxambu, na década de 1960: parte da história de Jundiaí (Foto: Acervo Maurício Ferreira)

Algumas profissões ou determinados tipos de trabalho estão cada vez mais difíceis de serem vistos por aí, não é? Nos anos 1980, quem nunca aproveitou para amolar a faca ou afiar a tesoura quando ouvia aquele tilintar da bicicleta passando pela rua? Com a chegada da tecnologia, muitas dessas funções passaram a ser feitas pelas pessoas em casa, mesmo, graças…

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Na Jundiaí de 1930, bombas de gasolina ficavam nas esquinas

Geralmente as bombas pertenciam a algum comércio próximo: você pagava e abastecia ali mesmo, na rua

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Tempo em que se podia abastecer os carros e caminhões sem a necessidade de um posto de combustíveis (Foto: Acervo Maurício Ferreira)

Você imagina o mundo, hoje, sem postos de combustíveis? A gente teve um exemplo claro disso quando houve a greve dos caminhoneiros, em 2018: ninguém conseguia abastecer e o país virou um caos, não é? Mas já houve uma época em que nem se pensava em ter estabelecimentos assim e a gasolina era vendida nas esquinas. Nessas duas imagens que…

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Miro Jarinu foi dono de panificadora e vereador, mas se consagrou como vendedor de carros

Líder comunitário na Vila Hortolândia, comerciante se destacou na política e como vendedor de veículos

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Miro Jarinu
Miro acompanha obra que reivindicou na avenida João Meccatti, no final dos anos 1960 (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Argemiro de Campos, o Miro Jarinu, nasceu em 1939. Filho de João Antônio e Maria do Carmo, ele sempre foi muito querido em toda Jundiaí por ser uma pessoa que exerce a plena cidadania. Em 1963, junto com o pai dele, João Antônio, e o irmão Geraldo, arrendou um bar na Vila Hortolândia e abriu a Panificadora Jarinu - uma…

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