Rafael Cervone
Rafael Cervone (Foto: CIESP)

A perda de fôlego da indústria brasileira nos últimos quatro meses de 2025 acende um sinal de alerta para o início de 2026. De acordo com o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Rafael Cervone, o cenário é resultado direto da persistência dos juros muito elevados, do agravamento histórico do chamado “Custo Brasil” e de um conjunto de medidas adotadas pelo governo ao longo do período.

Segundo Cervone, os fatores atuaram de forma combinada sobre a atividade industrial. “Todos esses fatores pesaram de modo direto sobre nossa atividade”, afirmou, ao comentar os dados divulgados na terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Produção industrial cresce pouco e perde força no segundo semestre

A produção industrial brasileira encerrou 2025 com crescimento de apenas 0,6%, marcando o terceiro ano consecutivo de expansão — após alta de 3,1% em 2024 e de 0,1% em 2023. Apesar do resultado positivo no acumulado, os números evidenciam uma desaceleração ao longo do ano.

Até junho, o setor registrava avanço de 1,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior. No segundo semestre, porém, a variação foi nula, e, entre setembro e dezembro, houve recuo de 1,9%, indicando perda clara de dinamismo.

Para Cervone, o movimento não é pontual. “O setor já vinha operando sob forte pressão de juros muito elevados, que encarecem o crédito, travam investimentos e comprimem o consumo. Quando isso se soma a impostos altos, insegurança jurídica, custos trabalhistas crescentes e à valorização do câmbio, o ambiente torna-se francamente adverso para quem produz”, ponderou.

Mudanças tributárias ampliam dificuldades para a indústria

De acordo com o presidente do Ciesp, medidas aprovadas no fim de 2025 contribuíram para aprofundar o cenário negativo. Entre elas está a Lei Complementar nº 128/2025, que passou a tratar o lucro presumido como benefício fiscal, elevando a tributação das empresas enquadradas nesse regime com receita anual acima de R$ 5 milhões.

“Quase metade do ônus adicional criado por essa lei recai sobre a indústria. Trata-se de uma alternativa inaceitável, sobretudo diante do papel estratégico do setor na economia brasileira”, salientou Cervone.

Outro ponto de preocupação é o aumento da tributação dos Juros sobre Capital Próprio (JCP), cuja alíquota subiu para 17,5%. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida deve elevar em cerca de R$ 1 bilhão a carga tributária do setor, reduzindo diretamente sua capacidade de investimento.

Impacto sobre pequenos negócios e efeitos limitados de políticas industriais

A situação se agravou ainda mais com a entrada em vigor da Lei nº 15.270/2025, que ampliou a tributação ao taxar lucros e dividendos. Conforme confirmado pela Receita Federal, foi estabelecida tributação de 10% sobre a base de cálculo do Simples Nacional.

“É um golpe duro contra os pequenos empreendedores, inclusive da indústria”, frisou Cervone.

Segundo ele, esse conjunto de fatores acaba neutralizando parte dos efeitos positivos de políticas públicas voltadas ao setor, como a Nova Indústria Brasil (NIB) e os mecanismos de depreciação acelerada. “São iniciativas importantes, mas perdem potência quando o ambiente macroeconômico e regulatório caminha na direção oposta”, avaliou.

Alerta para 2026: indústria forte é base do crescimento econômico

Para o presidente do Ciesp, a desaceleração registrada no fim de 2025 exige atenção redobrada para 2026. Ele reforça que a indústria desempenha papel central na economia nacional.

“A indústria é o setor que mais agrega valor, irradia efeitos por todas as cadeias produtivas, gera empregos de qualidade, tecnologia e inovação. Se perde ritmo, a economia como um todo sente. Precisamos de um ambiente mais favorável ao investimento, com juros menores e menos entraves estruturais. A retomada do crescimento passa necessariamente por um chão de fábrica forte”, enfatizou Rafael Cervone.