Da ordem internacional ao direito do mais forte
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Durante décadas, nas sociedades ocidentais, fomos educados dentro de uma narrativa clara: a de que a humanidade havia aprendido com seus piores crimes. O Holocausto, a escravidão, a colonização e os massacres dos séculos passados eram apresentados como horrores que não poderiam se repetir. A partir da Segunda Guerra Mundial, dizia-se, o mundo teria escolhido outro caminho: soberania nacional, direito internacional, respeito aos direitos humanos e rejeição explícita da lei do mais forte.

Essa narrativa não prometia um mundo perfeito, mas um mundo em progresso. Conflitos continuariam a existir, porém enquadrados por limites jurídicos, morais e institucionais capazes de conter a barbárie aberta. E, por um tempo, muitos de nós acreditamos sinceramente que esse era o rumo da história.

Desde 1945, no entanto, essa visão sempre conviveu com contradições evidentes. Vietnã, Coreia, Afeganistão, Iraque, Líbia: essas guerras já lançavam dúvidas profundas sobre a coerência entre discurso e prática. Ainda assim, havia um elemento constante que mantinha a ambiguidade viva: a necessidade de justificar. Democracia, direitos humanos, defesa da soberania, combate ao terrorismo, armas de destruição em massa. Mesmo quando frágeis ou falsas, essas justificativas funcionavam como um verniz moral. A violência não vinha nua; vinha acompanhada de discurso, diplomacia e um intenso bombardeio midiático que mantinha o cidadão em suspensão moral — não plenamente convencido, mas também não seguro o bastante para rejeitar.

Esse período parece ter terminado.

Desde 7 de outubro de 2023, e sobretudo a partir da resposta de Israel ao ataque do Hamas, algo se rompeu de forma definitiva. Não apenas pela escala da violência, mas porque ela passou a ocorrer sem constrangimento narrativo. As dúvidas acumuladas ao longo de décadas deixaram de ser dúvidas e se transformaram em certezas incômodas.

Massacres em larga escala voltaram a ocorrer de forma aberta, prolongada e transmitida em tempo real, sem que isso impeça o fornecimento contínuo de armas, apoio político e proteção diplomática por parte das grandes potências ocidentais. Não se trata mais de exceções ocultas, mas de uma normalização explícita da violência extrema.

Nesse contexto, o direito internacional revelou seu limite estrutural. O Tribunal Penal Internacional, concebido para ser o braço jurídico da justiça global, mostrou-se eficaz sobretudo contra países e líderes sem poder real. Quando mandados de prisão são emitidos contra autoridades centrais de um aliado estratégico do Ocidente — como Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel — nada acontece, enquanto juízes da própria corte passam a sofrer sanções impostas pelos Estados Unidos. A mensagem é inequívoca: o direito não é universal; ele é hierárquico.

A consequência lógica dessa ruptura é que os líderes já não sentem necessidade de sutileza. O que antes era disfarçado agora é assumido. Passa a prevalecer um novo princípio organizador das relações internacionais: o direito do mais poderoso.

É nesse contexto que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela deve ser analisado. A questão central não é a natureza autoritária do regime de Nicolás Maduro — isso é evidente e amplamente documentado. Afinal, cerca de 70% dos regimes no mundo não são democráticos, muitos deles profundamente repressivos com suas oposições políticas, e ainda assim mantêm relações estreitas, alianças estratégicas e cooperação militar com os Estados Unidos e outras potências ocidentais. Países como a Arábia Saudita ou o Azerbaijão ilustram bem essa realidade. A pergunta fundamental, portanto, é outra: com que direito um país bombardeia, derruba um governo que exerce soberania sobre um Estado reconhecido internacionalmente e, em seguida, anuncia a exploração de suas riquezas naturais?

Quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, afirma abertamente que grandes empresas petrolíferas dos EUA devem entrar no país, investir bilhões, reconstruir a infraestrutura e “gerar dinheiro”, a lógica torna-se transparente. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de libertação de povos. Trata-se de poder, controle e apropriação de recursos. Uma prática que remete menos ao século XXI e mais às fases mais explícitas do colonialismo — com a diferença de que agora ocorre diante de câmeras e redes sociais.

As consequências dessa nova dinâmica são previsíveis e profundamente preocupantes. A corrida armamentista tende a se intensificar — e já começou. Mais recursos serão desviados para indústrias que produzem destruição, enquanto necessidades sociais e ambientais permanecem sem resposta. O mundo torna-se mais instável, mais tenso e mais propenso a erros de cálculo capazes de gerar tragédias de dimensão planetária.

Talvez o efeito mais duradouro seja outro: ao agir dessa forma, os Estados Unidos e seus aliados oferecem a qualquer outra potência poderosa a justificativa perfeita para fazer o mesmo. E, quando isso acontecer, não haverá base moral nem jurídica para reclamar.

O desafio que se impõe às novas gerações é imenso. Não se trata apenas de lidar com um mundo mais violento, mas de reconstruir valores em um sistema internacional que passou a funcionar abertamente pela lógica da força. O futuro dependerá da capacidade de recolocar no centro princípios hoje relegados a segundo plano — paz, soberania, respeito e humanidade — não como discursos convenientes, mas como fundamentos reais da convivência entre as nações.

Sami Mansour é engenheiro civil com Pre-MBA em Administração de Empresas. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia e Assessor Especial de Cooperação Internacional da Prefeitura de Jundiaí, além de Secretário de Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico de Itupeva. Com experiência executiva no setor privado no Brasil e no exterior, participa ativamente de debates sobre geopolítica, economia global e políticas públicas.

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