Priscila Cristiane Ferreira Honório, psicóloga do Hospital Regional de Jundiaí
Foto: Arquivo Pessoal

Cuidar da saúde mental vai muito além de momentos específicos do ano. Envolve constância, autoconhecimento e respeito aos próprios limites em uma rotina marcada por cobranças, aceleração e excesso de estímulos.

Para falar sobre os impactos desse cenário na vida das pessoas, o Tribuna de Jundiaí ouviu Priscila Cristiane Ferreira Honório, psicóloga do Hospital Regional de Jundiaí, administrado pelo Instituto de Responsabilidade Sírio-Libanês.

Na entrevista a seguir, a especialista aborda temas como ansiedade, esgotamento emocional, metas, descanso, uso excessivo de telas e a importância de procurar ajuda profissional não apenas em momentos de crise, mas também como forma de prevenção e cuidado contínuo.

1. Por que ainda é tão difícil falar abertamente sobre saúde mental?

Historicamente, a saúde mental foi silenciada, medicalizada ou tratada como fraqueza moral. Durante muito tempo, o sofrimento psicológico foi confundido com falta de fé, caráter ou esforço. Romper com essa lógica é fundamental, porque cuidar da saúde mental é tão essencial quanto cuidar do corpo.

2. O início de novos ciclos costuma ser um período emocionalmente sensível para muitas pessoas?

Sim, e isso é amplamente observado na prática clínica. O simbolismo do recomeço ativa balanços internos sobre o que foi conquistado, perdido ou não realizado. O fechamento de um ciclo não interrompe as demandas da vida. Dívidas, retorno à rotina, lutos que não respeitam calendários e expectativas sociais — intensificadas pelas redes sociais — podem ampliar sentimentos de inadequação e solidão, especialmente em quem já está emocionalmente fragilizado.

3. Existe uma pressão social para “estar bem” que pode afetar a saúde mental?

Existe, e é uma pressão profundamente violenta, ainda que discreta. A sociedade vende a ideia de que todos devem ser produtivos, felizes e organizados. Quem não consegue acompanhar esse ritmo passa a sentir que há algo errado consigo. As redes sociais reforçam isso por meio de corpos transformados, rotinas perfeitas e promessas de sucesso. Estudos da psicologia social mostram que essa comparação constante aumenta a ansiedade e os sintomas depressivos.

4. Como as metas e resoluções podem impactar o psicológico?

Metas são importantes e funcionam como mapas ou bússolas. No entanto, quando são excessivas ou desconectadas da realidade, deixam de ser positivas e passam a ser coercitivas. Muitas pessoas estabelecem resoluções como tentativa de se consertar, e não de se cuidar. A ideia de “virar outra pessoa” gera frustração e sensação constante de fracasso. A mudança real acontece quando há aceitação de quem se é, permitindo transformações possíveis e não idealizadas.

5. Quando os objetivos deixam de ser motivadores e passam a gerar ansiedade?

Quando aquilo que parecia motivador passa a gerar medo: medo de falhar, de decepcionar os outros ou de se esforçar muito e ainda assim não alcançar o ideal. Objetivos saudáveis ampliam as possibilidades de viver melhor; objetivos ansiosos tornam a vida coercitiva. Quando uma meta gera insônia, autocobrança excessiva e culpa constante, ela deixa de ser positiva e passa a ser uma ameaça.

6. Como transformar metas em algo saudável e possível?

As metas precisam respeitar a pessoa, o contexto social em que ela vive e seus limites físicos, emocionais e de tempo. Em vez de mudar tudo de uma vez, é mais viável pensar em pequenos ajustes. Além de perguntar “o que eu quero conquistar?”, é fundamental questionar se isso é emocionalmente sustentável.

7. Quais são os impactos do ritmo acelerado na saúde mental?

Vivemos em uma lógica de urgência, imediatismo e performance, mas a mente humana não acompanha esse ritmo sem adoecer. Esse contexto favorece quadros de ansiedade, burnout, depressão e desconexão emocional. A exposição constante a estímulos rápidos impede o aprofundamento emocional e fragiliza vínculos familiares e conjugais.

8. Ansiedade e esgotamento emocional têm relação com a dificuldade de desacelerar?

Sim. Em muitos casos, a ansiedade é uma tentativa da mente de dar conta dos excessos. O corpo está cansado, mas a pessoa não consegue parar, muitas vezes por exigências da própria vida. Jornadas exaustivas, acúmulo de funções e responsabilidades tornam a aceleração quase inevitável, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Além disso, há a aceleração interna alimentada pelo uso excessivo de telas. Atividades simples, como caminhar, ajudam a regular o ritmo.

9. Quais são os sinais de que a mente está sobrecarregada?

A irritação é um dos primeiros sinais, muitas vezes mais aceito do que a tristeza. Outros sinais incluem esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração, perda de prazer em atividades antes agradáveis, choro fácil e isolamento. Esses sinais indicam funcionamento automático e sobrecarga emocional.

10. Desacelerar significa “parar tudo”?

Não. Desacelerar é respeitar o próprio tempo. É fazer o melhor possível dentro das condições do dia, sem comparações com os outros ou com o próprio desempenho anterior. O rendimento oscila porque as pessoas mudam constantemente, e reconhecer essas variações ajuda a respeitar os próprios limites.

11. Quais hábitos simples ajudam a desacelerar sem comprometer a produtividade?

O autoconhecimento é fundamental. Pausas conscientes para respirar ajudam na reconexão consigo mesmo. Ferramentas simples de organização permitem visualizar a produtividade real do dia. O cuidado com as telas é essencial, porque elas facilmente nos afastam da realidade. Sono, alimentação, hidratação e pequenas pausas contribuem para uma saúde mais equilibrada.

12. O descanso ainda é visto como preguiça pela sociedade?

Sim. O descanso foi historicamente associado à improdutividade, especialmente em um país marcado por herança escravocrata. Corpos femininos, em especial, foram ensinados a não descansar. Descansar é uma forma de respeito consigo mesmo e permite reconexão, criatividade e capacidade de sonhar. Pessoas cansadas não sonham, apenas sobrevivem.

13. Quais práticas fortalecem a saúde mental ao longo do ano?

O básico bem feito é fundamental: alimentação equilibrada, sono de qualidade, hidratação, redução do uso excessivo de telas e atenção aos próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos. Cuidar das relações e considerar as dimensões física, psicológica, espiritual e social da vida são aspectos essenciais.

14. Sono, alimentação e telas influenciam o bem-estar emocional?

Sim. Corpo e mente são inseparáveis. A hiperestimulação das telas afeta o sono, a alimentação consciente e as relações. Quando a atenção está sempre desviada, perde-se o contato com o presente. A tecnologia deve servir como apoio, não como afastamento da própria vida.

15. O autocuidado deve ser diário?

Autocuidado é constância. Não se trata de fazer tudo, mas de fazer o que é possível dentro da realidade de cada um. Se não dá para fazer atividade física cinco vezes por semana, que sejam três. A regularidade, mesmo em pequenas doses, é o que sustenta o cuidado ao longo do tempo.

A psicologia não deve ser associada apenas à doença. Seu foco principal está no autoconhecimento. Pessoas procuram terapia por diferentes motivos: para mudar de emprego, lidar com dificuldades afetivas ou atravessar experiências traumáticas. Não é necessário estar adoecido para buscar um psicólogo. Todos merecem a oportunidade de se conhecer melhor e compreender a própria história, emoções e escolhas.