O que é o combate do fogo com o fogo, técnica usada no Pantanal e distorcida em vídeo que circula no WhatsApp
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O que é o combate do fogo com o fogo, técnica usada no Pantanal e distorcida em vídeo que circula no WhatsApp

Um vídeo mostrando brigadistas trabalhando no Pantanal está circulando nas redes sociais e em grupos de WhatsApp com uma mensagem equivocada: a de que os profissionais estão causando, e não impedindo, incêndios na região

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Brigadistas trabalhando no Pantanal. (Foto: EPA)
Vídeo no WhatsApp mostra mensagem equivocada do trabalho dos brigadistas no Pantanal. (Foto: EPA)

Um vídeo mostrando brigadistas trabalhando no Pantanal está circulando nas redes sociais e em grupos de WhatsApp com uma mensagem equivocada: a de que os profissionais estão causando, e não impedindo, incêndios na região.

“Aí, os brigadistas. Em vez de apagar o fogo, estão tacando fogo. É brincadeira?”, diz a pessoa que grava o vídeo no Pantanal. A região vive sua pior crise nas última décadas, com cerca de 19% de sua área destruída pelo fogo nas últimas semanas, segundo o Instituto SOS Pantanal.

Mas, na realidade, o que os brigadistas estão fazendo é justamente combatendo o fogo por meio de uma técnica chamada queima de expansão. Como algumas das técnicas para prevenir e combater incêndios, esta envolve usar o fogo contra o fogo.

Na prática, o fogo queima pequenas faixas do terreno para eliminar a vegetação que é combustível para incêndios. Assim, quando os focos chegam a essa faixa queimada, não há mais combustível, e o incêndio é contido.

O vídeo foi gravado no domingo, 13 de setembro, segundo dia em que esse grupo de brigadistas do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão ligado ao governo federal) foi à região próxima da Estação Ecológica de Taiamã, uma unidade de conservação no Pantanal localizada no município de Cáceres, no Mato Grosso, para combater focos de incêndio.

Apesar de trazer uma informação incorreta, o vídeo que circulou nas redes sociais não é falso, nem é montagem o áudio dizendo que os brigadistas estão “tacando o fogo”. Sua veracidade foi confirmada em nota pelo ICMBio. De acordo com a instituição, quem gravou o vídeo foi de fato um brigadista que esteve em campo, “trazendo uma versão errônea sobre a prática de que ele participara”.

Segundo colegas, ele teria dito o que disse como uma “brincadeira”, por “ingenuidade” ou “infelicidade”. Por meio de redes sociais, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que o brigadista será exonerado, e que “o procedimento de uso preventivo e controlado de fogo para diminuir matéria orgânica está correto”.

O vídeo gerou “diversos mal-entendidos sobre as ações do ICMBio”, disse o instituto em nota, afirmando também que a “queima foi considerada um sucesso”.

Segundo Alexandre Pereira, analista ambiental do Ibama/PrevFogo (Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais), “a técnica foi extremamente eficaz e eficiente”.

“A estação ecológica de Taiamã é uma das poucas unidades de área protegida no Pantanal onde não há incêndios hoje”, diz. Uma foto tirada de helicóptero após a ação mostra claramente uma linha que divide a área queimada de uma área que ficou protegida do fogo – resultado da ação dos brigadistas.

Desde o dia da queima de expansão, não há focos de calor ativos na região.

Queima de expansão

Para o fogo existir, é preciso oxigênio, combustível e calor – o chamado “triângulo do fogo”.

“O único desses três componentes que podemos controlar é o material combustível”, diz Ronaldo Viana Soares, professor titular aposentado da Universidade Federal do Paraná especialista em controle de incêndios florestais. O combustível, no caso de incêndios florestais, é a vegetação.

“Queimando com baixa intensidade, evita-se o incêndio de grande intensidade. No vídeo, o que os brigadistas estão fazendo é evitar que o fogo de grande intensidade entre na área. Estão queimando superficialmente, com fogo de baixa intensidade, para consumir aquele combustível.”

Na queima de expansão, os brigadistas queimam faixas de vegetação seca para expandir a “margem de segurança”, explica Pereira, o analista do Ibama/PrevFogo.

“Para o fogo poder caminhar, ele precisa de combustível. O combustível é a própria vegetação. Com essa técnica, a gente antecipa o incêndio consumindo o combustível. Quando chega na faixa da queimada, não tem mais o que queimar”, diz. Sobra só a vegetação mais úmida, que impede a propagação do fogo.

Preferencialmente, diz ele, essa técnica é feita “na linha mais reta possível”. “Quando criamos ângulos, você cria oportunidades maiores de perder o controle desse fogo”, diz.

Foi isso que foi feito pelos brigadistas no vídeo.

A Estação Ecológica de Taiamã é uma unidade de conservação federal criada em 1981, no Pantanal mato-grossense, formada principalmente por campos inundáveis no rio Paraguai.

No fim de semana, havia focos ativos de calor próximos à estação que estavam avançando com força em direção à região oeste da estação ecológica.

Para impedir que isso acontecesse, os técnicos do ICMBio realizaram, então, a queima de expansão. Verificaram as condições que influenciam o comportamento do fogo, a direção e velocidade dos ventos, o tipo de terreno e tipo de combustível (ou seja, a vegetação) que precisaria ser queimado naquele momento.

Depois, aplicaram a queima por pontos, com o vento em direção à área que já estava queimando. Quando o incêndio chega a esses pontos, não há mais combustível para queimar. Além disso, na direção contrária da queima de expansão, havia um canal mais úmido, que fez o fogo apagar naturalmente. Dessa forma, a queima de expansão “matou” o incêndio que estava avançando, virando uma defesa contra ele.

A queima de expansão é só uma entre algumas técnicas de prevenção ou contenção do fogo por meio do próprio fogo – algo que pode acabar confundindo quem não tem conhecimento sobre o assunto.

Outras técnicas são o aceiro negro, faixas longas e lineares construídas antes de o incêndio acontecer, que também param o fogo que chega ali, e o contrafogo, que cria uma linha de fogo contínua que vai de encontro com o incêndio – recurso usado em último caso.

Usar o fogo de maneira controlada, impedindo grandes incêndios, é algo que os povos originários sempre dominaram.

Indígenas brasileiros ou aborígenes na Austrália, por exemplo, fazem uso do fogo “respeitando os ciclos de ocorrência natural do fogo nesses ambientes”, diz Pereira. Isso impede que matéria orgânica, ou combustível, fique acumulada em épocas críticas – como agosto e setembro, no Brasil.

“Se não tem biomassa acumulada, não tem tanto combustível para o fogo. E se os incêndios florestais ocorrerem, ocorrem com menor intensidade, e de forma mais controlável.”

“Conforme o homem branco foi colonizando, essa tradição foi se perdendo”, diz ele, destacando como o Ibama vem tentado resgatar esse conhecimento tradicional.

Com informações da BBC.

 

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